CRI
Cristianismo
O Pai Já Estava Correndo em Sua Direção
O filho tinha um discurso preparado. Ele tinha ensaiado a parte sobre indignidade, calibrado a quantidade certa de contrição pela distância que havia viajado da mesa da família. Nada disso era necessário. O pai estava correndo antes que o pedido de desculpas pudesse chegar — túnica levantada, sandálias na brita, indigno da melhor forma possível — e o anel foi colocado em uma mão que ainda cheirava a esterco de porco. Esta é a resposta da tradição para sua pergunta: pertencer não é um prêmio concedido por partida bem-sucedida e retorno. É a condição que o país distante não conseguiu apagar e que o fracasso não conseguiu confirmar. Você não se trabalhou para voltar. Você sempre foi recebível.
“Enquanto ele estava ainda longe, seu pai o viu e teve compaixão, e correu.”
— Lucas 15:20, ARA
EXI
Existencialismo
Você Escolheu Novamente. Assuma Isso.
A estrada de volta tem uma loja de conveniência com um letreiro piscante. Você conhece o letreiro. Algo em seu peito se afrouxou quando o viu, e você é tentado a chamar esse afrouxamento de pertencer — deixar a cidade receber crédito pelo alívio, dizer que o lugar o recebeu. Não recebeu. Você escolheu, novamente, com pleno conhecimento do custo, com o livro de contas aberto na sua frente. Essa escolha — não a brita, não o cheiro familiar do quintal, não o acidente de seu nascimento ali — é o único pertencer que já existiu. A cidade é indiferente. O escolhedor é você. Pare de terceirizar a autoria para uma geografia que nunca estava lendo seu dossiê.
“O homem está condenado à liberdade; porque uma vez lançado no mundo, ele é responsável por tudo o que faz.”
— Jean-Paul Sartre, O Existencialismo é um Humanismo
BUD
Budismo
Aquele Que Partiu Não é Aquele Que Retornou
O rio não retorna à montanha — ele chega a um lugar onde a montanha não está mais. Você partiu, e a partida mudou o lugar, porque um lugar é parcialmente tecido pela sua presença nele, e sua presença agora carrega um peso diferente, lança uma sombra diferente no chão da cozinha. Aquele que caminhou de volta por aquela porta não é aquele que uma vez a fechou do outro lado. O que significa que a pergunta — eu consegui, falhei — não tem um sujeito estável para se apegar. Tanto o retorno quanto o fracasso exigem um eu fixo cujo registro estamos revendo. Sente-se com a impermanência tempo suficiente e a pergunta não é respondida. Ela é superada.
“No visto, há apenas o visto. No ouvido, apenas o ouvido.”
— Udana 1.10, Cânone Pali
EST
Estoicismo
O Veredicto de Outras Pessoas Não Tem Jurisdição Aqui
A pergunta que você está realmente fazendo é se a multidão — o velho amigo que ficou, o primo que o viu partir, o vizinho fazendo a conta com seu carro e seu cronograma — consegue governar o que seu retorno significa. Não conseguem. Nem uma polegada de seu caráter cai sob sua jurisdição. Se você voltou porque falhou ou porque escolheu é um fato que apenas você possui, e mesmo que o fracasso seja parte disso, o fracasso não é a medida. A medida é o que seu julgamento faz a seguir. Toda vez que você entrega o martelo para alguém que não estava na sala quando você tomou a decisão, você está fazendo voluntariamente o que nenhuma força externa poderia forçar. Pare.
“Você tem poder sobre sua mente, não sobre os eventos externos. Perceba isso, e você encontrará força.”
— Marco Aurélio, Meditações
ABS
Absurdismo
A Cidade o Recebeu Sem Cerimônia ou Veredicto
Você voltou em uma terça-feira, provavelmente, com o carro meio cheio e uma razão que soava prática quando você a ensaiava. A cidade o recebeu do jeito que as cidades fazem — sem cerimônia, sem o gesto confirmador que você estava meio esperando, apenas o mesmo posto de gasolina no mesmo canto, indiferente como a geologia. Aqui está o que ninguém diz em voz alta: o universo não ratificará seu pertencer em nenhum lugar. Ele também não ratificou sua partida. O retorno não é prova de derrota nem prova de sabedoria — é o próximo ato de uma vida que exige que você continue escolhendo significar algo, com pleno conhecimento de que o significado não está esperando no solo para ser descoberto. Você voltou em uma terça-feira, provavelmente, com o carro meio cheio. Comece daí.
“Deve-se imaginar Sísifo feliz.”
— Albert Camus, O Mito de Sísifo