CIN
Cinismo
Seu Horror É a Única Coisa Feia que Restou
Diógenes pediu para ser jogado sobre o muro quando morresse — sem cerimônia, sem luz digna, sem sala arranjada para a ocasião. O escândalo nunca foi o descarte. Foram os rostos das pessoas assistindo, performatizando seu sofrimento pela indignidade disso. Você está fazendo isso agora: em pé no corredor, catalogando a cômoda de aglomerado que ela tinha desde 1987, e convertendo-a em um veredicto sobre o quanto ela era amada, ou não. Os móveis não morreram. Ela morreu. Os Cínicos foram implacáveis neste ponto — os bens convencionais, a sala bonita, o despacho apropriado, são máscaras que os vivos usam para evitar confrontar o que realmente aconteceu. Remova a máscara. Abaixo dela há apenas o fato, e seu rosto.
“Estou procurando por um homem honesto.”
— Diógenes de Sinope, atribuído
EXI
Existencialismo
A Lacuna Entre o Que Aconteceu e o Que Significa
Nenhum veredicto chega de fora. Os móveis feios são simplesmente móveis feios — moralmente inertes, cosmicamente indiferentes — até que uma consciência se coloque diante deles e decida o que significam. Essa consciência é a sua. Você não foi quem arrumou a sala, quem escolheu a lâmpada, quem a colocou naquela luz particular, o que significa que você está em pé agora na lacuna entre o que aconteceu e o que significa, e essa lacuna não se fecha por si mesma. Sartre foi implacável aqui: estamos condenados a escolher o significado, mesmo quando fingimos que outra pessoa está escolhendo por nós. Chamar a sala de feia e parar por aí ainda é uma escolha. Chamá-la de irrelevante é uma escolha. O que você não pode fazer — o que ninguém pode fazer — é sair da escolha.
“A existência precede a essência.”
— Jean-Paul Sartre, O Existencialismo é um Humanismo
JUD
Judaísmo
Você Lamenta a Cadeira Porque Ela Tem um Nome
O Talmude não resolve o luto tanto quanto o sustenta em argumento. O Rabino Yochanan diria sim — o olho carrega o luto para casa, e uma alma merece beleza em seu limiar; negar isto é negar que o corpo importava, que sua vida particular em seu quarto particular tinha peso. O Rabino Shimon diria que você está lamentando os móveis porque ainda não pode lamentá-la. A cadeira feia é lamentável. Tem bordas. Pode ser culpada. Sua ausência não tem bordas. Ambos os rabinos estão certos. A tradição não pede que você escolha entre eles — pede que você note qual pergunta você continua retornando no escuro, e que se sente com o que essa pergunta está o protegendo.
“A vela não pergunta se a sala é bonita — apenas se alguém a acendeu.”
— Ensinamento tradicional, atribuído
EPI
Epicurismo
A Dor Tinha Partido. Alguém Estava Perto. Bastava.
Epicuro era quase embaraçosamente prático sobre a morte: os requisitos do corpo para um bom fim não são beleza, mas a ausência de dor e a presença de uma voz em algum lugar perto. O que ela provavelmente ouviu, no final, era algo pequeno — um radiador tiquetaqueando, respiração que não era a dela, uma porta no final do corredor. Esse som é a resposta completa se você permitir que seja. Os Ditos do Vaticano são claros: sofremos mais com o que adicionamos à sensação nos quartos dos fundos da mente. Você adicionou os móveis feios como uma ferida. Não era uma ferida quando ela estava neles — era simplesmente onde ela estava. A ferida é a lacuna entre a sala que você queria para ela e a sala que existia, e essa lacuna sempre esteve em você, não nela.
“De todas as coisas que a sabedoria fornece para viver a vida toda em felicidade, a maior de todas é a posse da amizade.”
— Epicuro, Ditos do Vaticano, 52
ABS
Absurdismo
Os Móveis Feios Eram a Verdade Disso
O universo indiferente não suavizou a luz da lâmpada para ela. Não rearumou a cômoda de aglomerado ou angulou a lâmpada para pegá-la melhor. Ela foi mesmo assim, para esse mesmo silêncio para o qual todos vão, sob essa mesma luz ruim, e isto é ou heroico ou simplesmente o que acontece, e Camus lhe diria que a distância entre essas duas coisas é menor do que você pensa. O herói absurdo não morre em uma boa sala. Sísifo não recebe a montanha bem iluminada para ele. O que Camus insiste — teimosamente, contra todo consolo — é que a feiúra não nega a vida, não diminui a revolta de ter estado aqui. Os móveis feios eram o cenário. Há apenas um cenário. Ela fez seu papel inteiramente nele.
“Deve-se imaginar Sísifo feliz.”
— Albert Camus, O Mito de Sísifo